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Fotografia estereoscópica de um homem e uma mulher sentados a um piano.
Underwood & Underwood. (ca. 1903) The Duet. , ca. 1903. New York: Underwood & Underwood. [Photograph]. Library of Congress, Prints and Photographs Division. https://www.loc.gov/item/90708802/

Conveyances: autora brasileira Vanessa Bárbara sobre e através da tradução

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Na série de blog Conveyances, as salas de leitura das coleções internacionais da Biblioteca do Congresso exploram as formas em que a palavra traduzida nos conecta através de continentes, culturas, e séculos. O presente blog é uma entrevista escrita entre Henry Widener (HW), Bibliotecário Lusófono de Referência, com a autora e tradutora brasileira Vanessa Bárbara (VB) sobre sua experiência com a tradução ao longo da vida.

HW: Como você começou a trabalhar como tradutora? Há quanto tempo você trabalha com tradução?

VB: Eu era preparadora de originais (fact-checker) para a editora Companhia das Letras, mas sempre gostei do trabalho de tradução. Comecei traduzindo infantis para a CosacNaify e fiz um teste para traduzir literatura adulta para a Companhia das Letras. O primeiro título que traduzi foi Cabeça Tubarão (The Raw Shark Texts), de Steven Hall, de 2007.

Foto em preto e branco de quatro mulheres sentadas a uma escrivaninha. Duas mulheres seguram uma folha e a marcam com lápis.
Collins, M., photographer. (1942) Washington, D.C. Two volunteer translators of the Red Cross Foreign Inquiry Service puzzle over a message from Holland… Library of Congress, Prints and Photographs Division.

HW: Muitos dizem que tradução é uma arte, ou seja, algo que envolve a criatividade do tradutor. Como sua voz ou seu estilo aparecem nas traduções?

VB: Sim, traduzir não é um ato tão mecânico quanto passar um texto por uma máquina e receber um resultado sempre igual. Minha preocupação é sempre em obter um equilíbrio entre fidelidade à obra, solidariedade ao leitor e contenção dos meus impulsos criativos, que são completamente desvairados.

Mas enfim: sou uma tradutora muito lenta porque demoro um tempão para assimilar a voz do autor ou autora. Isso só acontece ao longo do trabalho, por isso muitas vezes tenho que rever os primeiros capítulos para corrigir essa falta de familiaridade inicial. Ainda assim, minha própria voz sempre vaza para o texto original, de uma forma ou de outra. Tento fazer com que o resultado final seja pelo menos um dueto.

HW: Você já traduziu as obras de F. Scott Fitzgerald, Art Spiegelman, Virginia Woolf, Lewis Carroll, e Gertrude Stein, entre outros. Qual é a ligação entre esses autores ou suas traduções deles? Houve algum desafio específico?

VB: Lewis Carroll foi o mais difícil, ainda que, de todos os títulos que traduzi, era o que mais tinha a ver com meu próprio estilo de humor nonsense. Traduzir os poemas dele esteve muito próximo do impossível. Penso que, mais para o fim da vida, posso tentar de novo, e tenho certeza de que vou encontrar soluções melhores.

Traduzir O grande Gatsby foi como viajar no romance – dolorido, mas uma delícia. Fiz até um mapa para me situar no ambiente da história. Achei muito difícil encontrar a voz da Gertrude Stein.

Uma coisa que une todos esses autores é que precisei fazer muita pesquisa, procurar referências e estudos para embasar minhas opções de tradução – principalmente no caso da Virginia Woolf. E eu gosto muito dessa parte do trabalho, acho que fala um pouco à minha alma de checadora.

Uma página de Alice in Wonderland de Lewis Carroll. A página mostra uma gravura que retrata o encontro de Alice com o Gato de Cheshire.
Carroll, Lewis, 1832-1898,. Alice’s adventures in Wonderland, with forty-two illustrations by John Tenniel. [London: Macmillan and Co., . London: Richard Clay]. Library of Congress, Rare Books and Special Collections Division.
HW: Seu livro Noites de alface (The Lettuce Nights) já foi traduzido para seis idiomas. O que há nesse livro que o possibilita chegar a públicos de diversas línguas e culturas? A recepção da obra muda conforme o idioma da tradução?

VB: Acho que é uma história meio universal – sobre relacionamentos, vizinhança, luto, introversão. E é bem maluca também, com elementos de suspense e personagens esquisitos. Destaco a tradução francesa do Dominique Nédellec, que ficou excepcional e foi crucial para que o romance recebesse o Prix du Premier Roman Étranger, em 2016. (Um exemplo: ele traduz “cansada para burro”, que é a expressão que fecha o romance, como “vachement fatiguée”, o que eu acho genial.)

HW: Muitos leitores preferem ler as obras no idioma original porque sentem que dessa forma se aproximam mais do autor e da obra. O que você diria a quem só pode interagir com um autor através da tradução? Há algum autor que você adora, mas só consegue acessar pela tradução?

VB: Ah, sim! Todos os russos (eu amo o Tolstói). Além de alguns franceses: eu me apaixonei pelo Flaubert através das traduções para o português. Acho que se sempre perde um pouco ao ler uma obra na tradução, mas também se ganha alguma coisa: essa mediação cultural do tradutor com o autor é muito rica e beneficia o leitor de várias formas. Por exemplo: ao conduzi-lo pela mão a um universo tão diferente do dele.

Eu cresci lendo traduções antigas com muitas ênclises, mesóclises e acentos diferenciais. Essa linguagem mais antiquada conversava com as obras de alguma forma, como se eu de fato estivesse lendo algo em outro idioma, só que no meu próprio.

A literatura é isso também, acho. Você já chega no livro com uma disposição de mergulhar em outro universo, ainda que ele pareça um tanto deslocado do seu.

Descubra mais

Library of Congress StoryMaps: Literary Translators of Latin American Culture: A Brief History of Literary Translations in the PALABRA Archive And The Handbook of Latin American Studies (HLAS)

Library of Congress Research Guides: The PALABRA Archive at the Library of Congress

4 Corners of the World Blog: Conveyances: Poet Salgado Maranhão and Translator Alexis Levitin Join the PALABRA Archive

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